30 março 2012

Pergunto-me porque ainda estou acordada a esta hora. Porque é que, em vez de começar a pôr em dia as horas de sono de que abdiquei (de bom grado, verdade seja dita), estou aqui, a escrever (ainda por cima sem um objetivo definido)? Hoje, no carro, a caminho de casa, a cabeça pesava-me tanto (já mais do que o coração) que pensei «não aguento nem uma hora». Mas tinha de esperar por um telefonema. Não, reformulo: queria esperar por um telefonema. E esperei. Fui espreitar os gatinhos (todos a dormir enroscados na mãe) e a minha linda Yuki, que continua a ser o meu bebé, comer pela 2.ª vez desde ontem à tarde (vá, terceira, se contarmos a meia sopa do almoço), fumar um cigarro e decidi ver uma série qualquer que não me fizesse pensar em absolutamente nada. E depois, foi-se tudo precipitando. Os sentimentos, que, por mais que tente engarrafar, fazem sempre questão de me rebentar o peito quando menos quero. Esta sensibilidade quase ridícula, mas ao mesmo tempo provavelmente aquilo que melhor me define. «We're all insane», canta a Sónia Tavares, enquanto outro fala de linhas paralelas que, contra qualquer expectativa, se encontram. Um dia disse-te que éramos como linhas paralelas, e também assim o diz a poesia.

A seleção de música que intitulei bubble bath (porque foi a banda sonora do último que tomei) está subtilmente a enterrar-se nas minhas omoplatas. E creio que vou, finalmente, descansar, e dar como encerrado este dia-montanha-russa. Amanhã espera-me outra montanha-russa, que quero ultrapassar sem qualquer aperto na barriga e sem uma única pontinha de lágrima pronta para escorregar por mim abaixo.

Se alguém ainda se perguntava por que razão não escrevo mais, agora já sabem: porque é isto que sai.

19 março 2012

one more thing:



















Já perdi a conta da quantidade de vezes em que abri isto com inúmeros pensamentos na cabeça e um formigueiro nos dedos, e voltei a fechar, sem conseguir encaixar duas palavras. Pensei que hoje pudesse ser a exceção, mas parece que não. Por vezes sinto que tenho tanto a dizer que nada me sai. As imagens são sempre mais fáceis. E, no fim de contas, diz-se que cada uma vale mil palavras. 
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer. 



- Eugénio de Andrade