22 novembro 2012

Ler


 
 
 
 



No fim de semana passado, tive uma discussão com um grande amigo sobre as vantagens de ler livros num Kindle (ou algo do género) ou ler em papel. Uma discussão que foi, no fundo, eu irredutível na minha posição, e ele na dele. Aquilo que tentei explicar-lhe é que, para mim, o ato de ler não tem só a ver com ler. Tem a ver com o cheiro, com o som das páginas a virar, com o peso nas mãos, com a marca que escolho com cuidado. Ler, para mim, é um conjunto de sensações e de emoções que seriam quase completamente erradicadas se eu decidisse começar a ler num dispositivo eletrónico. É que nem consigo conceber tal coisa. Acredito que dê muito jeito, que seja muito prático, mas eu gosto de andar com o meu livro atrás. Gosto que, a maior parte das vezes, ele não me caiba na carteira. Gosto de escrever coisas a lápis quando necessário, gosto que as páginas fiquem encarquilhadas pelo uso. Gosto de levar o meu livro para a praia e, quando o acabo, sentir que ele já não fecha como deve ser por causa do sal, e ouvir, quando chego a casa, os grãos de areia que nele se instalaram a roçar nas páginas. O livro, para mim, é como um organismo vivo, que vive nas minhas mãos e através dos meus olhos, que vive através do uso que eu lhe dou. Este meu amigo quase me implorou para me emprestar o tal dispositivo eletrónico durante uma semana, para eu experimentar. Insistiu mil vezes, e eu mil vezes lhe disse que não, que não queria, que não concebia virar as páginas com um dedinho, que nada disso me fazia qualquer sentido. E não é por achar que vou gostar, é porque sei que não vou.

19 novembro 2012

Cloud Atlas















Nem sei bem o que escrever sobre este filme. As expectativas eram muito altas, e confesso que durante todo o filme fui pensando isto vai mudar, vai dar mais. Mas não deu. A mensagem é linda, mas pouco explorada. Senti o filme demasiado superficial. E no entanto a minha mente ainda não conseguiu sossegar. (daí estas belas horas)
Nunca me considerei esotérica, mas vou chegando à conclusão de que se calhar o sou, nem que seja um bocadinho. Acredito que cada pessoa entra na nossa vida por uma razão, que cada uma tem o seu papel, não importa quão efémero, cada uma tem o seu impacto e deixa as suas marcas, algumas até cicatrizes. E essas marcas, essas cicatrizes, esses golpes nos nossos corações, nas nossas almas (sim, acho que acredito em almas), são aquilo que nos vai transformando numa versão cada vez mais perfeita de nós. Acredito que nascemos e vivemos com um propósito, que somos capazes de mudar muito mais do que acreditamos à nossa volta. Acredito que há pessoas que se cruzam connosco que estão destinadas para nós, que parecem mais um membro do nosso próprio corpo, mais um batimento do nosso próprio coração. Acredito que estamos todos ligados. Acredito em energias, em sensações, acho que até acredito em magia. Talvez aquilo a que eu chamo magia seja, para alguns, fé. Gostava de que o fosse. Já senti magia. Já vivi magia. Há momentos que só consigo explicar com magia. Uma porta de um comboio que fica aberta em andamento, permitindo que dois corações continuem a bater à mesma velocidade, uma frase nossa acabada por outra pessoa, saber que alguém vai telefonar-nos, mesmo que não falemos com esse alguém há meses. Há coisas inexplicáveis. Há sentimentos inexplicáveis. Há momentos inexplicáveis. E, no entanto, tudo faz sentido. Porque, a seu tempo, as peças de um puzzle acabam sempre por se juntar.

Acredito que, num oceano imenso, basta uma gota para começar a mudar o mundo.

Our lives are not our own. We are bound to others, past and present. And by each crime, and every kindness, we birth our future.